General Richard e a dura realidade do país ou para além dos perigosos devaneios dos arautos da violência

Rio de Janeiro – Forças Armadas fazem operação conjunta com as polícias Civil e Militar em comunidades na zona oeste da cidade. (Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Sérgio Botêlho

Diz a manchete do jornal O Globo, em sua edição deste domingo, 04.03.2018, o seguinte: “Exército levará ação social às favelas, diz general”. O subtítulo é ainda mais surpreendente, do ponto de vista positivo: “Novo secretário de Segurança defende o fim dos confrontos”. Enfim, a reprodução das palavras do militar: “O enfrentamento é quase uma lei de ação e reação. É um ciclo vicioso que precisa ser rompido”.

Curioso e animado pela clarividência expressa pelo general Richard Nunes, me detive a ler toda a matéria, na verdade, uma entrevista exclusiva do jornal fluminense com o novo secretário de Segurança do Rio de Janeiro, levado ao cargo por força da intervenção militar na Segurança Pública daquele estado, transformada em manchete por decisão editorial.

Minha animação continuou durante toda a entrevista, por força das palavras do general Richard Nunes. Novo trecho: “Não há processo de pacificação calçado na expressão militar do poder. É só uma face da solução. Quando uma ocupação se restringe à atuação militar, não resolve as causas do problema, mas os efeitos. As causas serão resolvidas nos planos econômico, social e político”.

Nada mais animador do que ouvir tais considerações, absolutamente verdadeiras, e, creio, bastante sinceras, de um homem público que há poucos dias pediu mudanças na lei para que as ações dos militares, durante o combate à criminalidade, fossem apreciadas pela Justiça Militar, e, não, pela Justiça comum com base na atual legislação calcada nos princípios do respeito aos direitos humanos.

Sobre o tema, o general Richard procura minimizar suas declarações: “não posso submeter um soldado a um código legislativo inadequado para a situação. A operação não é policial, é militar. Assim, os atos desse soldado têm que ser apreciados pela Justiça Militar”.

Infelizmente, não deixa de ser um perigo, no entanto, mais diminuído diante da resposta dada pelo general ao repórter que perguntou por que ocupações militares foram descartadas. Disse, ele: “Chegamos à conclusão que não produzem resultado, só desgastam um efetivo enorme. Isso é o que a criminalidade quer: mil homens imobilizados numa área. As ações que estamos fazendo vão ter resultado um pouco mais adiante”.

No geral, portanto, os posicionamentos do novo secretário de Segurança do Rio de Janeiro representam importante libelo contra os que, em devaneios autoritários e ao arrepio completo da realidade, vivem defendendo a detonação dos morros e o enfrentamento sem regras aos criminosos, como meio de acabar com o crime, no país.

Ao dizer que o Exército vai adotar ações sociais nas comunidades onde vivem os criminosos, quis o general deixar bem claro que o problema do crime não se resolve, apenas, pelos seus efeitos, mas, pelas causas. Aliás, ele disse isso explicitamente, conforme já reproduzi um pouco acima.

O que adianta matar dezenas de criminosos, e, junto com eles, outras dezenas de inocentes, se o crime continuará sendo a atração dos que estão na miséria. Não há medo que impeça alguém com fome de adotar o caminho do crime.

Para quem não sabe, ou finge não saber, nos morros cariocas, assim como em todas as comunidades pobres pelo país afora, residem não somente alguns milhares de bandidos, mas, também, milhões de pessoas trabalhadoras responsáveis pela movimentação das economias das cidades brasileiras.

São cozinheiras e cozinheiros, bombeiros e bombeiras, trabalhadores e trabalhadoras domésticas, operários e operárias, comerciários e comerciárias, porteiros e porteiras, motoristas particulares e dos serviços públicos oficiais e de transportes, carteiros e carteiras, garçons e garçonetes, portuários e portuárias, policiais e militares em geral. Enfim: uma gente que, sem ela, nada funciona.

Sendo essa gente vítima diária dos bandidos, na qualidade de reféns destes, não pode ser ao mesmo tempo vítima da ação repressiva da polícia, uma vez que padece ela (a gente trabalhadora) e, ainda, a vida cotidiana, no país.

Com certeza a esses defensores da mais estúpida violência contra as comunidades mais pobres do país cabem muito bem outras palavras do general secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, a O Globo: “Hoje, a sociedade resolve pequenas questões com uma violência absurda, há um clima de intolerância em toda parte. Questões menores se transformam em atos violentos, com desfecho muitas vezes trágico”.

É o general falando, minha gente, baseado na mais crua e dura realidade, do país! Dá para entender?

 

 

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